segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS

II
CARACTERÍSTICAS TEOLÓGICAS E LITERÁRIAS

Marcos não é um historiador como Lucas. Antes é um narrador que conta o que chegou ao seu conhecimento. Escreve em grego, com a rustica característica de quem está usando um idioma que não lhe é próprio e, contudo, desenvolve um estilo vivo e vigoroso.
Mesmo relatando coisa ouvidas que lhe vem à memória, é capaz de criar a impressão de encontrar-se como testemunha ocular dos fatos relatados. Estes detalhes tornam necessário o estudo da estrutura literária e do conteúdo desse evangelho.

1.  Estrutura Literária 
Após a introdução, a primeira metade do evangelho descreve a atividade de Jesus na Galileia e arredores. A segunda metade enfoca a preparação para o sofrimento e Jesus em Jerusalém. A última metade um discurso apocalíptico e a paixão de Cristo.
Esta estrutura destaca a autoridade (no grego exousia) de Jesus. Assim que sabemos quem é Jesus (Mc 1.1-15), veremos sua autoridade se revelando em obra e palavra (Mc 1.16-3.6), sua rejeição por parte dos Judeus (Mc 3.7-6.6) e os discípulos equivocados acerca de Jesus (Mc 6.6b-8.21).  Mas é no caminho para Jerusalém que Jesus esclarece sua autoridade e explica suas consequências para os seus seguidores (Mc 8.22-10.52). Em Jerusalém Jesus se depara com resistência a seu ensino (Mc 11.1-13,37) e enfrenta uma morte cruel e trágica nas mãos das pessoas que rejeitaram sua autoridade (Mc14.1-16,8).
Assim Marcos criou o gênero literário do evangelho. Paulo e outros dos primeiros cristãos usaram o termo evangelion, como as “boas novas” sobre a ação de Deus em Jesus Cristo. Como o primeiro a escrever um relato do ministério de Jesus de uma forma ordenada, Marcos parece ter criado um modelo seguido e desenvolvido por outros evangelistas.
O estilo de Marcos agradava os romanos, uma mensagem direta. Tantas vezes aparece a conjunção “e”. Este é o evangelho do ministério de Jesus. Os romanos dos dias de Jesus era um tipo semelhante ao homem de negócios de hoje. Ele não está interessado na genealogia de um rei, mas num Deus capaz de suprir as necessidades diárias do indivíduo. 

2. Teologia de Marcos

Marcos destaca em sua teologia o mesmo que Jesus destacou em seu ministério terreno – o Reino de Deus. Tudo o que é ensinado por Jesus e a resposta que os discípulos dão a este ensino, recebe sua estrutura no Reino de Deus.
Jesus inicia o seu ministério pregando sobre o Reino de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho. ”
No tempo de Jesus, o Reino de Deus se designava como a revelação do senhorio de Deus no final da história e seu reconhecimento por parte de toda a criação. Os ensinos de Jesus, seus milagres, as parábolas tudo tinha como objetivo aprofundar a compreensão e, mostrar com antecipação como será a vida no Reino de Deus. Mesmo estando em grande medida oculto, em Jesus o Reino de Deus é inaugurado e antecipado. Podemos concluir que a vida de Jesus, era de fato a maior demonstração do Reino de Deus.
Assim, a teologia de Marcos é sublime em seu intento: qualquer pessoa que deseje entender o Reino de Deus deve olhar para Jesus, o Servo que cura, o Servo que é Mestre por excelência, o Servo que foi crucificado e ressurreto.
Os milagres relatados são equilibrados pelo retrato da Paixão de Cristo que Marcos nos fornece. A medida que progride, o desenvolvimento dramático cresce com intensidade, até alcançar o seu ápice, o relato da Paixão, Crucificação e Ressurreição de Jesus. Cristo anuncia três vezes esses acontecimentos: “O Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas... e o entregarão aos gentios; hão de... mata-lo; mas depois de três dias, ressuscitará” (Mc 10.34 e 34; 8.31 e 9.31). Dentro dessa estrutura teológica, há um amplo uso do acervo de títulos Cristológicos: Messias, Filho de Deus, Filho do Homem, Senhor, Filho de Davi, Servo Sofredor e Justo Sofredor.
Marcos revela o chamado de “segredo messiânico”. Este termo surgiu dos vários episódios em que Jesus ordena que as pessoas guardem silencio sobre sua ação ou identidade (Mc 1.34 e 44; 3.12; 5.43; 7.36; 8.26 e 30; 9.9). Harrington (2011), citando W. Wrede explicou “este fenômeno como a forma de Marcos explicar o fato de que Jesus, em seu ministério público, nem reivindicou ser o Messias, nem foi reconhecido como tal. A personalidade de Jesus, não satisfez às expectativas judaicas, pois longe de se apresentar como político e militar, o fez como um homem humilde cuja a atividade e ensinamentos não correspondiam à imagem triunfante de um libertador nacional. Marcos como um todo mostra que o significado real da messianidade de Jesus só se tornou claro com a sua morte e ressurreição. Outro ponto que devemos observar, é que os judeus esperavam um Messias com funções Políticas e Militares, talvez Marcos não quisesse provocar as autoridades romanas.
Outro ponto marcante na teologia de Marcos, é a preocupação com o discipulado. Segundo este evangelista, o ideal de discipulado é “ouvir, seguir e estar com Jesus, compartilhando de sua missão de pregar e curar”. Também, parece que Marcos que nos mostrar que o único modelo a ser seguido é o de Cristo. Na primeira metade do evangelho, os discípulos são retratados como exemplos a serem seguidos; na segunda parte, eles são exemplos a serem evitados. Esta mudança destaca Jesus como o único que merece imitação. Jesus de Nazaré, é o Filho de Deus, mas também é o Filho do Homem. Participa dos sentimentos humanos e é sujeito ao sofrimento e à morte (Mc 8.31). Por isso preenche todos os requisitos para ser o nosso modelo ideal.
Não entendam isso como uma polemica entre Marcos e os discípulos, não nos esqueçamos que uma das fontes que cedeu material para a elaboração desse evangelho foi o apostolo Pedro.

Sergio Levi

Fontes de Pesquisa: 
BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.




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