O
EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS
II
TEOLOGIA DE MARCOS
Os evangelhos não são biografias, mas uma história
concisa da redenção obtida mediante a obra de Cristo. Marcos demonstra a
autoridade de Cristo como o Mestre (Mc 1.22), sua autoridade sobre Satanás e os
espíritos malignos (Mc 1.27; 3.20-30), sobre as doenças (Mc 5.21-34), sobre o
pecado (Mc2.1-12), sobre o sábado (Mc 2.27 e 28; 3.1-6), a natureza (Mc
4.35-41; 6.45-52), a morte (Mc5.35-43), as tradições legalistas (Mc 7.1-13) e que
Jesus é maior que o templo (Mc 11.15-18).
1. A teologia que revela Cristo
O título de abertura revela sua tese central em
relação a identidade de Jesus Cristo como o Filho de Deus: “Princípio do
evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). O batismo e a
transfiguração revelam sua qualidade de Filho de Deus (Mc 1.11 e 9.7). Até os
espíritos imundos reconhecem Jesus como o Filho de Deus (Mc 3.11 e 5.7). Sua
parábola faz alusão a qualidade de Filho de Deus (Mc 12.6). Por fim a narrativa
da crucificação termina com a confissão do centurião romano: ‘Verdadeiramente,
este era Filho de Deus” (Mc 15.39).
Jesus usou com mais frequência o título de “Filho
do Homem”, num total de catorze vezes em Marcos. Ele como Messias (Dn 7.13),
utilizou tal título para revelar e para esconder seu messianismo e
relacionar-se com tanto com Deus quanto com os homens.
2. A teologia que revela o Espirito Santo
Assim como os demais evangelistas, Marcos recorda a
profecia de João Batista de que Jesus “batizaria com Espirito Santo (Mc 1.8).
Os crentes seriam totalmente imersos no Espirito Santo, como os seguidores de
João eram nas águas.
O Espirito Santo desceu sobre Jesus em seu batismo
(Mc 1.10), habilitando-o para o seu trabalho messiânico de cumprimento das
profecias de Isaias 42.1; 48.16 e 61.1-2. Assim, seus milagres e ensinamentos
resultaram da unção do Espírito Santo. O Espirito Santo conduzia Jesus, mesmo
nos lugares mais distantes (Mc1.12). Esta passagem indica a urgência que o
Espirito Santo tinha por promover o encontro entre Cristo e Satanás, para que esse
vencendo a tentação embarcasse em sua missão de destruir o poder das trevas.
O pecado contra o Espirito Santo é colocado em
contraste com “todos os pecados” (Mc 3.28), pois esse pecados e blasfêmias
podem ser perdoados. O contexto define o significado dessa verdade assustadora.
Os escribas blasfemaram contra o Espirito Santo ao atribuírem a Satanás a
expulsão dos demônios. Tal obra, Jesus realizava pela ação do Espirito Santo
(Mc 3.22).
Marcos destaca a inspiração que Jesus credita ao
Espirito Santo no Antigo Testamento (Mc 12.36). E quando os cristãos
enfrentassem a hostilidade de autoridades injustas, o Espirito falará através
deles (Mc 13.11).
A teologia de Marcos sobre o Espirito Santo é tão
rica, que além de referências explicitas sobre sua atuação no ministério de
Jesus, há o emprego de outras palavras com o dom do Espirito Santo, como poder,
autoridade, profeta, cura, imposição de mãos, Messias e Reino.
3. A teologia que revela a Paixão de Cristo
Marcos escreve para uma igreja que estava sendo
perseguida. Muitos desses cristãos eram gentios convertidos ao cristianismo,
muitos não conheciam nada do Antigo Testamento. Muitos não estavam interessados
no cumprimento de profecias. Mas estavam interessados em um líder notável que
surgira na Palestina. A esse líder se atribuía autoridade fora do comum e
possuía poderes que não eram dessa terra. Estes irmãos queriam ouvir e saber
mais a respeito de Jesus – que pessoa ele era, o que tinha dito e o que tinha
feito.
Nas décadas de 60-70 d.C., os crentes de Roma eram
tratados cruelmente pelo povo e muitos foram torturados e mortos pelo Imperador
Romano, Nero. Segundo a tradição, entre os mártires cristãos de Roma, nessa década,
estão os apóstolos Pedro e Paulo. Como um dos líderes eclesiásticos em Roma,
João Marcos foi inspirado pelo Espirito Santo a escrever, como uma antevisão
profética desse período de perseguição, ou como uma resposta pastoral à
perseguição. Sua intenção era fortalecer os irmãos romanos e inspirá-los,
oferecendo-lhes como modelo a vida e, o sofrimento de Cristo.
a)
A trama para
matar Jesus
Foi na tarde de Terça-feira. Cerca de um mês antes disto, depois que
Jesus ressuscitou a Lázaro, o sinédrio decidira definitivamente matá-lo (João
11.53). Mas a popularidade de Jesus tornou-o alvo difícil (Lc 22.2). Até
Jerusalém as multidões não O deixavam (Mc 12.37). A oportunidade chegou, na
segunda à noite depois desta, com a traição de Judas que, num movimento de surpresa,
entregou-O ao sinédrio a noite, enquanto a cidade dormia. Apressaram-se em
fazer que fosse condenado antes que clareasse o dia e, de manhã, antes que as
multidões na cidade despertassem, já O tinha pregado na cruz.
b)
A traição
Cabia a Judas entregar Jesus ao sinédrio na
ausência das multidões. Covardes, eles não ousavam prender ou fazer qualquer
dano a Jesus em público com medo de serem apedrejados pelo povo. Judas era
discípulo, o mesmo sabia os lugares secretos de retiro do mestre amado. Jesus
sabia desde o princípio o valor que seria traído. Trinta moedas de prata eram
equivalentes ao preço de um escravo (Êx 21.32). Talvez eles pensassem que Jesus
usaria seus poderes para livrar-se, ou se revelaria como o Messias. Todavia, Jesus
era o cordeiro de Deus, e aos seus olhos o que Judas fez foi um ato de perfídia
(Mt 26.24). Tudo o que ocorreu com o Servo Amado fora predito (Zc 11.12 e 13).
c)
O julgamento
Marcos apresenta dois Julgamentos – um diante dos
líderes judaicos e outros diante de Pilatos. Parece que Marcos considerou o
julgamento judaico como o mais decisivo, ainda que em uma perspectiva jurídica,
o julgamento que valia era o Romano. Diante dos dois julgamentos, Jesus o Servo
Humilde fica totalmente em silencio.
Diante de Anás. Cerca de meia-noite, Caifás era o
sumo sacerdote. Mas seu sogro, Anás, que fora deposto em 16 d.C., ainda
retinha, mediante os filhos, a influência do oficio. De acordo com fontes
históricas da época, a família de Anás se enriquecera às custas das barracas de
negócio no templo.
Na casa de Caifás (Mc 14.53). Deu-se o principal
julgamento no âmbito judaico. Incapazes de apresentar alguma acusação baseada
em testemunho, condenaram-no por “blasfêmia”, por Se haver declarado Filho de
Deus (Mc 14.61 e 62). Apesar dessa sessão ser ilegal por força da própria lei
que os regia, nosso Amado Cristo foi escarniado enquanto aqueles homens maus
esperavam o dia clarear.
Depois de uma noite de escarnio, o sinédrio
ratifica oficialmente sua decisão (Mc 15.1), para lhe dar aparência de
legalidade. A acusação que o sinédrio levou até Pilatos, não vale muito. De
modo que tentaram acusá-lo de sedição contra o governo Romano.
O governador romano Pôncio Pilatos foi legalmente
responsável pela morte de Jesus por crucificação. A acusação que levou à
crucificação foi a reivindicação de que Jesus era o “rei dos Judeus” – um
título que segundo os comentaristas tinha tons revolucionários para os romanos.
Marcos e os outros evangelistas apresentam as
autoridades judaicas como os principais articuladores e Pilatos simplesmente
cedendo à sua tática de pressão. Esta tendência protocristã de diminuir o
envolvimento dos romanos e atribuir às autoridades judaicas a responsabilidade
principal pela morte de Jesus. O relato de Marcos do julgamento diante de
Pilatos de fato omite o veredito.
Quem foi Pôncio Pilatos? Prefeito da Judeia de 25 a
36 d.C., o retrato de Pilatos como como indeciso e preocupado com a justiça
contradiz outras descrições antigas que falam de sua crueldade e obstinação.
Seu quartel-general era na Cesareia Marítima; ele tinha vindo para Jerusalém
supervisionar a peregrinação da Pascoa de modo a evitar tumultos. A pergunta
que Pilatos a Jesus: “Es tu o rei dos Judeus? Era uma estratégia para
liga-lo a movimentos messiânicos-políticos daquele tempo e condená-lo como
revolucionário. A resposta de Cristo, é magnifica e única: Tu o dizes. Não
nega a verdade do título da forma como foi aplicado a Ele, mas não aceita a
estrutura política implicada no uso por Pilatos.
Depois da entrevista particular, Pilatos está
convencido da inocência de Jesus. Vindo a saber ser Ele da Galileia, mandou-O a
Herodes, que tinha jurisdição sobre aquela parte do país. A exemplo dos líderes
do sinédrio, Herodes escarnece de Jesus, vestindo-O de uma roupa aparatosa, e
mandou-O de volta a Pilatos.
Diante de Pilatos outra vez, o mesmo lava as mãos e
diante do ardil da ameaça de denunciá-lo a Cesar, caso solte Jesus. Pilatos decreta
a sentença.
d)
A
crucificação
O relato da crucificação é feito de forma simples e
sem se deter nos detalhes dos sofrimentos de Jesus (ainda que estes façam parte
da passagem).
O local da crucificação merece a nossa atenção.
Marcos relata que jesus foi crucificado em um monte chamado Gólgota (em aramaico:
Gûlgaltâ; em latim:
Calvaria;
em grego: Κρανιου Τοπος; transliterado Kraniou Topos).
Calvário vem do latim calvaria, O termo significa
"caveira", referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de
crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio. Este lugar ficava fora dos muros de
Jerusalém.
A expressão “então o crucificaram”, demostra que a
descrição é dura e breve. Seu manto se tornou propriedade dos soldados que o
executava.
e)
A morte de
Jesus
A morte de Jesus aconteceu de acordo com a vontade
de Deus dada a conhecer nas profecias do Antigo Testamento. O rasgar do véu do
Templo e a confissão do centurião dão à morte de Jesus uma dimensão profunda em
relação ao antigo Israel e à missão aos gentios.
Marcos narra que houve trevas sobre toda a terra.
Esta terra provavelmente se refira a Judeia. As trevas da hora sexta (meio-dia)
até a hora nona (15 horas), têm sido interpretadas como uma tempestade de
areia, outros a interpretam como um eclipse solar.
Ao escrever o clamor que Jesus fez em aramaico do
Salmos 22 “Eloi, Eloi, Lema Sabachthani”, o evangelista não exclui uma
experiência do abandono emocional de Jesus, assim descrevendo as dores que
Cristo suportou como sendo espirituais, físicas e emocionais.
Depois de sentir as maiores dores, Cristo dando um
grande grito, morre. Uma morte repentina e violenta, não havendo demora em
detalhes do último clamor do Mestre Amado.
f)
Sepultamento
e Ressurreição
José de Arimateia, provavelmente um membro do
sinédrio que condenou Jesus se dirige a Pilatos e pede o corpo de Jesus. Após a
investigação e a confirmação oficial de que Jesus estava realmente morto – logo
qualquer teoria que fale de Jesus em coma ou um tipo de ataque não merece
confiança.
Jesus é sepultado em uma área em torno de Jerusalém
descrita como um gigantesco cemitério. A tumba de José era uma estrutura
semelhante a uma caverna, formada de calcário e selada com uma grande pedra
circular. O cadáver seria posicionado em uma prateleira esculpida na rocha,
onde iria se decompor por cerca de um ano. Então os ossos seriam juntados e colocados
em um ossuário.
A maior prova da ressurreição de Jesus, não era o
tumulo vazio, esta foi a condição necessária para os discípulos proclamarem que
Jesus estava vivo e, fora ressuscitado dos mortos.
Consideração finais
Há forte
evidencias de que Marcos finaliza o seu relato no versículo 8 do capitulo 16. O
relato do versículo 9 ao 20 do mesmo capitulo, dá origem a teoria do final mais
longo. O estilo e a escrita, indicam que não foi escrito pelo mesmo autor esta
parte do evangelho, além do estilo, não consta nos melhores e mais antigos
manuscritos disponíveis atualmente e não constava nos manuscritos dos tempos
patrísticas. É muito provável que seja um compendio, do século II, das
aparições baseado em Lucas 24 e João 20.
Porém, isso não tira a beleza e a inspiração desse
evangelho, que além de servir de fonte para os de Mateus e Lucas, também serviu
de palavras de encorajamento e esperança para os crentes perseguidos pelo
império Romano.
Sergio Levi
Fontes de Pesquisa:
BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.
Nenhum comentário:
Postar um comentário