segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS

II
 TEOLOGIA DE MARCOS

Os evangelhos não são biografias, mas uma história concisa da redenção obtida mediante a obra de Cristo. Marcos demonstra a autoridade de Cristo como o Mestre (Mc 1.22), sua autoridade sobre Satanás e os espíritos malignos (Mc 1.27; 3.20-30), sobre as doenças (Mc 5.21-34), sobre o pecado (Mc2.1-12), sobre o sábado (Mc 2.27 e 28; 3.1-6), a natureza (Mc 4.35-41; 6.45-52), a morte (Mc5.35-43), as tradições legalistas (Mc 7.1-13) e que Jesus é maior que o templo (Mc 11.15-18).

1. A teologia que revela Cristo

O título de abertura revela sua tese central em relação a identidade de Jesus Cristo como o Filho de Deus: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). O batismo e a transfiguração revelam sua qualidade de Filho de Deus (Mc 1.11 e 9.7). Até os espíritos imundos reconhecem Jesus como o Filho de Deus (Mc 3.11 e 5.7). Sua parábola faz alusão a qualidade de Filho de Deus (Mc 12.6). Por fim a narrativa da crucificação termina com a confissão do centurião romano: ‘Verdadeiramente, este era Filho de Deus” (Mc 15.39).
Jesus usou com mais frequência o título de “Filho do Homem”, num total de catorze vezes em Marcos. Ele como Messias (Dn 7.13), utilizou tal título para revelar e para esconder seu messianismo e relacionar-se com tanto com Deus quanto com os homens.

2. A teologia que revela o Espirito Santo

Assim como os demais evangelistas, Marcos recorda a profecia de João Batista de que Jesus “batizaria com Espirito Santo (Mc 1.8). Os crentes seriam totalmente imersos no Espirito Santo, como os seguidores de João eram nas águas.
O Espirito Santo desceu sobre Jesus em seu batismo (Mc 1.10), habilitando-o para o seu trabalho messiânico de cumprimento das profecias de Isaias 42.1; 48.16 e 61.1-2. Assim, seus milagres e ensinamentos resultaram da unção do Espírito Santo. O Espirito Santo conduzia Jesus, mesmo nos lugares mais distantes (Mc1.12). Esta passagem indica a urgência que o Espirito Santo tinha por promover o encontro entre Cristo e Satanás, para que esse vencendo a tentação embarcasse em sua missão de destruir o poder das trevas.
O pecado contra o Espirito Santo é colocado em contraste com “todos os pecados” (Mc 3.28), pois esse pecados e blasfêmias podem ser perdoados. O contexto define o significado dessa verdade assustadora. Os escribas blasfemaram contra o Espirito Santo ao atribuírem a Satanás a expulsão dos demônios. Tal obra, Jesus realizava pela ação do Espirito Santo (Mc 3.22).
Marcos destaca a inspiração que Jesus credita ao Espirito Santo no Antigo Testamento (Mc 12.36). E quando os cristãos enfrentassem a hostilidade de autoridades injustas, o Espirito falará através deles (Mc 13.11).
A teologia de Marcos sobre o Espirito Santo é tão rica, que além de referências explicitas sobre sua atuação no ministério de Jesus, há o emprego de outras palavras com o dom do Espirito Santo, como poder, autoridade, profeta, cura, imposição de mãos, Messias e Reino.

3. A teologia que revela a Paixão de Cristo

Marcos escreve para uma igreja que estava sendo perseguida. Muitos desses cristãos eram gentios convertidos ao cristianismo, muitos não conheciam nada do Antigo Testamento. Muitos não estavam interessados no cumprimento de profecias. Mas estavam interessados em um líder notável que surgira na Palestina. A esse líder se atribuía autoridade fora do comum e possuía poderes que não eram dessa terra. Estes irmãos queriam ouvir e saber mais a respeito de Jesus – que pessoa ele era, o que tinha dito e o que tinha feito.
Nas décadas de 60-70 d.C., os crentes de Roma eram tratados cruelmente pelo povo e muitos foram torturados e mortos pelo Imperador Romano, Nero. Segundo a tradição, entre os mártires cristãos de Roma, nessa década, estão os apóstolos Pedro e Paulo. Como um dos líderes eclesiásticos em Roma, João Marcos foi inspirado pelo Espirito Santo a escrever, como uma antevisão profética desse período de perseguição, ou como uma resposta pastoral à perseguição. Sua intenção era fortalecer os irmãos romanos e inspirá-los, oferecendo-lhes como modelo a vida e, o sofrimento de Cristo.

a)      A trama para matar Jesus

Foi na tarde de Terça-feira. Cerca de um mês antes disto, depois que Jesus ressuscitou a Lázaro, o sinédrio decidira definitivamente matá-lo (João 11.53). Mas a popularidade de Jesus tornou-o alvo difícil (Lc 22.2). Até Jerusalém as multidões não O deixavam (Mc 12.37). A oportunidade chegou, na segunda à noite depois desta, com a traição de Judas que, num movimento de surpresa, entregou-O ao sinédrio a noite, enquanto a cidade dormia. Apressaram-se em fazer que fosse condenado antes que clareasse o dia e, de manhã, antes que as multidões na cidade despertassem, já O tinha pregado na cruz.
b)      A traição

Cabia a Judas entregar Jesus ao sinédrio na ausência das multidões. Covardes, eles não ousavam prender ou fazer qualquer dano a Jesus em público com medo de serem apedrejados pelo povo. Judas era discípulo, o mesmo sabia os lugares secretos de retiro do mestre amado. Jesus sabia desde o princípio o valor que seria traído. Trinta moedas de prata eram equivalentes ao preço de um escravo (Êx 21.32). Talvez eles pensassem que Jesus usaria seus poderes para livrar-se, ou se revelaria como o Messias. Todavia, Jesus era o cordeiro de Deus, e aos seus olhos o que Judas fez foi um ato de perfídia (Mt 26.24). Tudo o que ocorreu com o Servo Amado fora predito (Zc 11.12 e 13).

c)      O julgamento

Marcos apresenta dois Julgamentos – um diante dos líderes judaicos e outros diante de Pilatos. Parece que Marcos considerou o julgamento judaico como o mais decisivo, ainda que em uma perspectiva jurídica, o julgamento que valia era o Romano. Diante dos dois julgamentos, Jesus o Servo Humilde fica totalmente em silencio.
Diante de Anás. Cerca de meia-noite, Caifás era o sumo sacerdote. Mas seu sogro, Anás, que fora deposto em 16 d.C., ainda retinha, mediante os filhos, a influência do oficio. De acordo com fontes históricas da época, a família de Anás se enriquecera às custas das barracas de negócio no templo.
Na casa de Caifás (Mc 14.53). Deu-se o principal julgamento no âmbito judaico. Incapazes de apresentar alguma acusação baseada em testemunho, condenaram-no por “blasfêmia”, por Se haver declarado Filho de Deus (Mc 14.61 e 62). Apesar dessa sessão ser ilegal por força da própria lei que os regia, nosso Amado Cristo foi escarniado enquanto aqueles homens maus esperavam o dia clarear.
Depois de uma noite de escarnio, o sinédrio ratifica oficialmente sua decisão (Mc 15.1), para lhe dar aparência de legalidade. A acusação que o sinédrio levou até Pilatos, não vale muito. De modo que tentaram acusá-lo de sedição contra o governo Romano.
O governador romano Pôncio Pilatos foi legalmente responsável pela morte de Jesus por crucificação. A acusação que levou à crucificação foi a reivindicação de que Jesus era o “rei dos Judeus” – um título que segundo os comentaristas tinha tons revolucionários para os romanos.
Marcos e os outros evangelistas apresentam as autoridades judaicas como os principais articuladores e Pilatos simplesmente cedendo à sua tática de pressão. Esta tendência protocristã de diminuir o envolvimento dos romanos e atribuir às autoridades judaicas a responsabilidade principal pela morte de Jesus. O relato de Marcos do julgamento diante de Pilatos de fato omite o veredito.
Quem foi Pôncio Pilatos? Prefeito da Judeia de 25 a 36 d.C., o retrato de Pilatos como como indeciso e preocupado com a justiça contradiz outras descrições antigas que falam de sua crueldade e obstinação. Seu quartel-general era na Cesareia Marítima; ele tinha vindo para Jerusalém supervisionar a peregrinação da Pascoa de modo a evitar tumultos. A pergunta que Pilatos a Jesus: “Es tu o rei dos Judeus? Era uma estratégia para liga-lo a movimentos messiânicos-políticos daquele tempo e condená-lo como revolucionário. A resposta de Cristo, é magnifica e única: Tu o dizes. Não nega a verdade do título da forma como foi aplicado a Ele, mas não aceita a estrutura política implicada no uso por Pilatos.
Depois da entrevista particular, Pilatos está convencido da inocência de Jesus. Vindo a saber ser Ele da Galileia, mandou-O a Herodes, que tinha jurisdição sobre aquela parte do país. A exemplo dos líderes do sinédrio, Herodes escarnece de Jesus, vestindo-O de uma roupa aparatosa, e mandou-O de volta a Pilatos.  
Diante de Pilatos outra vez, o mesmo lava as mãos e diante do ardil da ameaça de denunciá-lo a Cesar, caso solte Jesus. Pilatos decreta a sentença.

d)     A crucificação

O relato da crucificação é feito de forma simples e sem se deter nos detalhes dos sofrimentos de Jesus (ainda que estes façam parte da passagem).
O local da crucificação merece a nossa atenção. Marcos relata que jesus foi crucificado em um monte chamado Gólgota (em aramaico: Gûlgaltâ; em latim: Calvaria; em grego: Κρανιου Τοπος; transliterado Kraniou Topos). Calvário vem do latim calvaria, O termo significa "caveira", referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio. Este lugar ficava fora dos muros de Jerusalém.
A expressão “então o crucificaram”, demostra que a descrição é dura e breve. Seu manto se tornou propriedade dos soldados que o executava.

e)      A morte de Jesus

A morte de Jesus aconteceu de acordo com a vontade de Deus dada a conhecer nas profecias do Antigo Testamento. O rasgar do véu do Templo e a confissão do centurião dão à morte de Jesus uma dimensão profunda em relação ao antigo Israel e à missão aos gentios.
Marcos narra que houve trevas sobre toda a terra. Esta terra provavelmente se refira a Judeia. As trevas da hora sexta (meio-dia) até a hora nona (15 horas), têm sido interpretadas como uma tempestade de areia, outros a interpretam como um eclipse solar.
Ao escrever o clamor que Jesus fez em aramaico do Salmos 22 “Eloi, Eloi, Lema Sabachthani”, o evangelista não exclui uma experiência do abandono emocional de Jesus, assim descrevendo as dores que Cristo suportou como sendo espirituais, físicas e emocionais.
Depois de sentir as maiores dores, Cristo dando um grande grito, morre. Uma morte repentina e violenta, não havendo demora em detalhes do último clamor do Mestre Amado.

f)       Sepultamento e Ressurreição

José de Arimateia, provavelmente um membro do sinédrio que condenou Jesus se dirige a Pilatos e pede o corpo de Jesus. Após a investigação e a confirmação oficial de que Jesus estava realmente morto – logo qualquer teoria que fale de Jesus em coma ou um tipo de ataque não merece confiança.
Jesus é sepultado em uma área em torno de Jerusalém descrita como um gigantesco cemitério. A tumba de José era uma estrutura semelhante a uma caverna, formada de calcário e selada com uma grande pedra circular. O cadáver seria posicionado em uma prateleira esculpida na rocha, onde iria se decompor por cerca de um ano. Então os ossos seriam juntados e colocados em um ossuário.
A maior prova da ressurreição de Jesus, não era o tumulo vazio, esta foi a condição necessária para os discípulos proclamarem que Jesus estava vivo e, fora ressuscitado dos mortos. 
         
 Consideração finais

 Há forte evidencias de que Marcos finaliza o seu relato no versículo 8 do capitulo 16. O relato do versículo 9 ao 20 do mesmo capitulo, dá origem a teoria do final mais longo. O estilo e a escrita, indicam que não foi escrito pelo mesmo autor esta parte do evangelho, além do estilo, não consta nos melhores e mais antigos manuscritos disponíveis atualmente e não constava nos manuscritos dos tempos patrísticas. É muito provável que seja um compendio, do século II, das aparições baseado em Lucas 24 e João 20.
Porém, isso não tira a beleza e a inspiração desse evangelho, que além de servir de fonte para os de Mateus e Lucas, também serviu de palavras de encorajamento e esperança para os crentes perseguidos pelo império Romano. 

Sergio Levi

Fontes de Pesquisa: 

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.





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