terça-feira, 25 de outubro de 2016

CARACTERÍSTICAS TEOLÓGICAS E LITERÁRIAS
DO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

O evangelho segundo Lucas, ajusta-se, em termos gerais aos esquemas de Mateus e de Marcos. O que diferencia este dos outros sinóticos, é que Lucas trabalhou e poliu o seu texto com especial atenção. A riqueza do vocabulário e a amplitude dos recursos estilísticos. Fazem desse evangelho um relato artístico e histórico digno do Homem Perfeito – Cristo Jesus.
Com 96 páginas no texto grego, este evangelho é o mais extenso do Novo Testamento. O evangelho de Mateus tem 87 páginas.
O estilo literário é mais refinado, a única palavra Hebraica que aparece é “amém”. Isso demonstra que o público era de fala grega. Focado nos fatos e menos nas falas de Jesus. Isso não quer dizer que Lucas despreze os ensinos de Jesus, neste o autor nos apresenta o Mestre por excelência e, parábolas e ensino que não são vistos no demais.
Lucas traz um tema central muito relevante para a fé cristã: “Jesus Cristo é o Senhor” (Lucas 2.10). Assim, Jesus e todo o seu ministério é apresentado a partir desse eixo.
Outro ponto que marca na teologia de Lucas, é o amor que Jesus tem pelos grupos desprezados e marginalizados da sociedade (Lucas 5.1; 7.36; 15.1; 18.9; 19.1 e 23.42 e 43). Além de focar nos samaritanos (Lucas 10.30 e 17.11), Lucas da atenção especial às mulheres no grupo de seguidores de Jesus (Lucas 7.12 e 15; 8.2; 10.38 e 23.27).
Se os grupos menos favorecidos pela sociedade judaica são amados por Cristo, Lucas destaca a atitude crítica de Jesus em relação aos ricos e a classe religiosa que oprimiam o povo.
O destaque que Lucas dá aos menos favorecidos, já lhe rendeu o título de “Lucas – o evangelista dos pobres” (Degenhardt – citado por Hörster, 1996). Não pensem que Lucas inaugura a Teologia da Libertação, mas o destaque está no amor de Deus que vale para todos os homens, mesmo os marginalizados. Este amor, estabelece a relação entre Jesus o Filho de Deus e o ser humano caído e a margem do plano de Deus. 


Fontes de Pesquisa:

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
     Robert}. Karris, O.F.M. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
LUCAS
O evangelho segundo Lucas, apresenta peculiaridades que o distinguem dos outros sinóticos. O autor apresenta o material que dispôs para escrever seu evangelho, como também apresenta o objetivo e método. Este é digno de um historiador, ou acadêmico. Ao ler este evangelho e o de Marcos, observamos que Marcos é seguido até a “grande lacuna” (Marcos 6.45-8.25). A complementação desse material está nas histórias sobre a infância de Jesus.
Neste evangelho a atenção especial é dada aos pecadores, aos marginalizados pela sociedade, às mulheres e aos pobres. Este e o livro de Atos dos Apóstolos formam uma unidade. Neste o autor apresenta a humanidade de Jesus, o seu ministério, sofrimento, morte e ressurreição. Nos Atos dos Apóstolos, o foco é a propagação do evangelho de Jerusalém até    Roma. 
Segundo Karris “existem sete testemunhas antigas sobre o autor: o Cânon Muratoriano, Irineu, O prólogo do Evangelho do final do século II, Tertuliano, Orígenes, Eusébio e Jerônimo”. Todas apontam um médico grego chamado Lucas como o escritor, ele escreveu para os seus patrícios que amavam a beleza, a poesia e a cultura.
Vamos ao testemunho sobre o autor. Irineu escreve: “Lucas, companheiro de viagem de Paulo, registrou o evangelho por este pregado em um livro”. No Cânon Muratóri (final do século II) lemos o seguinte: “O terceiro evangelho, segundo Lucas. Esse médico o escreveu depois da ascensão de Jesus quando Paulo o requisitou para guia de suas viagens, de acordo com o pensamento deste. Mas ele também não viu o Senhor em carne, e por isso, com base no seu conhecimento, ele também inicia a relatar desde o nascimento de João”.
Quem foi Lucas? Segundo Marcião, em seu prologo escrito no século IV, Lucas foi um sírio de Antioquia, médico de profissão, um discípulo de apostolo; mas tarde acompanhou Paulo até o martírio. Não teve esposa e nem filhos, faleceu aos 84 anos na Boécia, cheio do Espirito Santo.
Como vimos já existiam outros evangelhos – o de Mateus na Judéia e o de Marcos em Roma – Lucas escreve para as regiões da Acaia. Era necessário escrever para os cristãos gentios um relato exato da salvação, para que não fossem arrastados por mitologias judaicas e fantasias vazias e heréticas proveniente da filosofia grega.
As escrituras do Novo Testamento, confirmam algumas coisas sobre Lucas. Era médico e companheiro de Paulo (Cl 4.14; Fm 24; 2Tm 4.11). A narrativa das viagens de Atos, em primeira pessoa “nós”, levam a conclusão de que o autor era companheiro de Paulo nas viagens.
Entre os quatro evangelistas, Lucas é quem mais se aproxima do conceito atual de historiador. Cuidadoso no seu trabalho, se preocupou em narrar de maneira inteligente e ordenada tudo quanto sabia acerca da pessoa e do ministério de Jesus.
Conforme falamos neste estudo, Lucas usou o evangelho de Marcos como fonte para escrever. Assim, podemos concluir que este evangelho foi escrito depois da guerra de 70 d.C., uma vez que Lucas 21.5-38 pressupõe que Jerusalém foi destruída. Alguns colocam a data de 75 d.C., como certa. Assim estaríamos falando de um evangelho que fora escrito depois da destruição de Jerusalém, mas antes da perseguição aos cristãos por Domiciano entre 81-96 d.C.
A origem desse evangelho consta fora da Palestina, pois foi escrito por um cristão-gentio para cristãos-gentios.
O destino é claro os cristãos-gentios, mas o médico Lucas dedica o seu livro a Teófilo. Quem foi este? Segundo a tradição um homem culto e influente. Se era cristão não sabemos. De qualquer maneira, Lucas menciona que Teófilo era instruído em palavras. Isso pode significar que já fora instruído na fé em Jesus Cristo e que agora deveria ser fortalecido nela. Outros apontam Teófilo como funcionário romano, que recebera informações sobre os cristãos e agora queria informações confiáveis a respeito da fé cristã. É possível que quisesse se engajar na propagação desse livro entre os grupos que conheciam a fé cristã. Assim, este evangelho não é endereçado a um homem, mas a esse grupo de leitores.

Fontes de Pesquisa:

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
     Robert}. Karris, O.F.M. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.
  

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CARACTERÍSTICAS TEOLÓGICAS E LITERÁRIAS
DO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Mateus era um evangelista cristão vindo do judaísmo, conhecedor da Escritura, fiel a tradição. Isso fica evidente porque o autor fala em “Reino dos Céus” e não em “Reino de Deus”, porque os judeus não propiciavam o nome de Deus. Além de dispensar a explicação dos costumes dos judeus, demonstrando que era fato corriqueiro. Um exemplo: Mateus 24.20 lemos “Pedi para que a vossa fuga não seja no inverno nem no Sábado”. Agora a mesma passagem aparece em Marcos 13.18, porém sem o acréscimo final (“nem no sábado”), que é um acréscimo de Mateus por causa do costume Judeu.
Sua teologia é de simples compreensão, o mesmo não podemos falar do seu caráter. Tradicionalmente compreendido como um evangelho judaico-cristão. Percebe-se que o seu final é gentílico-cristão, assim podemos compreender que o contato com o judaísmo foi rompido. Aqui temos a primeira grande questão desse evangelho: Mateus está dentro ou fora do judaísmo? Supondo que a comunidade de Mateus tivesse sido excluída do judaísmo, esta pergunta esconde uma grande ambiguidade. Ainda que excluídos, muitos ainda se sentissem judeus. E o autor parece sentir alguma magoa ao relatar fortes polemicas contra os rabinos de Jâmnia no capitulo 23.
Para adentrarmos a teologia desse livro precisamos dar uma resposta à questão levantada. Então pensemos desta maneira: Apesar da amarga briga de família, o evangelho de Mateus traz uma predominantemente uma perspectiva judaico-cristã, aberta para os gentios.
O escritor tem várias finalidades ao escrever: instruir e exortar os membros de sua comunidade; talvez fornecer material para leituras litúrgicas e sermões, mas também oferecer um discurso evangelístico aos não cristãos, uma apologética e polemica aos críticos e rivais dos atos e palavras de Jesus.
O autor parecer ter dois focos fundamentais, mostrar Jesus como o Cristo e a chegada do Reino de Deus que Jesus proclama. Isso fica evidente no começo do evangelho quando Jesus é apresentado como o Filho de Deus e Emanuel, e no final quando Jesus se apresenta como aquele que tem toda a autoridade (divina) como o Filho do Homem sobre o Reino de Deus, no céu e na terra.
A estrutura desse evangelho demostra que Mateus deu valor superior ao ensino de Jesus do que Marcos. No entanto, ele não ignora os atos e diálogos de Jesus.  Assim como Marcos ele registra estes fatos, porém o cerne é o ensino.  
Algumas questões foram formuladas como os rabinos da época costumavam pensar. Por exemplo o costume de lavar as mãos (Mateus 15.2), os filactérios que eram usados nos braços (Mateus 23.5), as franjas nos cantos das vestes (Mateus 23.5), a expressão “coais o mosquito e engolis o camelo” (Mateus 23.24), lemos “túmulos caiados” (Mateus 23.27), as expressões aramaicas transliteradas para o grego: raka, que significa tolo ou idiota (Mateus 5.22) e korbanan, que é o tesouro do templo (Mateus 27.6). Outra questão é acerca do divórcio (Mateus 19.3-9).  
Como já citado anteriormente, a expressão “Reino dos Céus” em lugar de “Reino de Deus”, constatando a forte religiosidade judaica do livro, constatando que a validade da lei não foi interrompida (Mateus 5.19; 23.3). 
É evidente que o propósito da teologia de Mateus é demostrar que em Jesus se cumpriram as promessas messiânicas do Antigo Testamento: Jesus é o Messias de Israel. Portanto, é impregnado tanto com citações quanto a alusões ao Antigo Testamento, introduzindo muitas delas como formula “para que se cumprisse”. No evangelho Jesus é apresentado como o “Filho do Homem”, uma característica do caráter messiânico (Daniel 7.13 e 14). No evangelho de Mateus, este título nos permite ver Jesus e sua missão de redenção (Mateus 17.12,22; 20.28; 26.24), quanto ao seu retorno na glória (Mateus 13.41; 16.27; 19.28; 24.30 e 44; 26.64). Quando Mateus atribui a Jesus o título de “Filho de Deus” claramente ele está mostrando a divindade de Jesus (Mateus 1.23; 2.15; 3.17; 16.16). Como Filho, Jesus tem um relacionamento direto e sem mediação com o Pai (Mateus 11.27).
Outro assunto que permeia a teologia de Mateus é a igreja, esta nova comunidade, que é chamada pelo mestre Jesus para viver a nova ética do Reino dos Céus. Logo a igreja é o instrumento de Deus para cumprir os seus objetivos na terra (Mateus 16.18; 18.15-20). Temos como exemplo a Grande Comissão (Mateus 28.12-20), que é a garantia da presença viva de Jesus. 

Fontes de Pesquisa:

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
     Benedict T. Viviano, O.P. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS

O evangelho segundo Mateus foi e é o que mais influenciou a história da igreja cristã. No século II este já era conhecido em todo o meio cristão. Era a base para a instrução sobre as Palavras e a vida de Jesus Cristo. Por essa razão era lido nos cultos e servia no discipulado dos candidatos ao batismo.
A preeminência desse evangelho é tal, que toda afirmação sobre a pregação de Jesus se orienta primeiramente por Mateus, pois contém o Sermão do Monte, as parábolas sobre o Reino de Deus, as orientações de Jesus e o discurso sobre o tempo do fim.
Se Marcos é o evangelho dos Atos de Jesus, este é o evangelho do discurso do discipulado do Mestre por Excelência. Uma das características desse evangelho são as grandes sequencias de discursos.

O autor

O autor não é desconhecido. O nome Mateus é citado no título do evangelho, que surgiu no século II e a partir de lá foi incorporada a tradição de que Mateus seria o autor. Esta tradição se baseia em relatos como o de Eusébio na sua História Eclesiástica: “Mateus fez uma coletânea dos discursos de Jesus em hebraico; cada um, no entanto, os traduziu o melhor que pôde”. Irineu, outro mestre da igreja escreveu: “Mateus publicou um evangelho entre os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma e lá fundaram a igreja”. Eusébio, relatando a experiência de Pantaenus - teólogo hábil de Alexandria, que dedicou a sua vida para evangelização dos povos do oriente e viajou para a Índia. Chegando à Índia teria encontrado cristãos que já conheciam o evangelho de Mateus, e que dele ouviu que o Apostolo Bartolomeu lhes pregara a boa notícia e lhes deixara o evangelho segundo Mateus em hebraico. Outro mestre que Eusébio cita é Orígenes: Com base na tradição tenho descoberto a respeito dos quatro evangelhos, que foram aceitos sem restrições na igreja de Deus por onde ela tem se espalhado debaixo do céu, que primeiro foi escrito o evangelho por Mateus, o que havia sido cobrador de impostos e depois foi discípulo de Jesus Cristo. Foi escrito na língua hebraica para os que creram entre os judeus”.
Estes relatos confirmam dois fatos: o apóstolo Mateus é o autor do evangelho que recebe o seu nome e o seu evangelho foi escrito na língua hebraica. Esta tradição é digna de confiança por alguns motivos. Irineu e Orígenes, cuja a língua era o grego, afirmam que este evangelho foi escrito em hebraico. E há outra fonte digna de confiança, Papias.
Concluímos com base na tradição da igreja antiga, que Mateus escreveu originalmente em hebraico. Que posteriormente foi traduzido para o grego, recebendo o nome “evangelho segundo Mateus”. Provavelmente, esta tradução foi feita pelo próprio Mateus.

Data, Local e Destino 

O tempo em que foi escrito este evangelho entre 80 e 100 d.C. Alguns comentaristas seguramente afirma depois de 70, pois pressupõem que já houve a destruição de Jerusalém, e também é posterior ao evangelho de Marcos, pois demonstra grande evolução teológica. Se admitirmos que o evangelista dialogava com a academia rabínica de Jâmnia, chegamos a data de 75 e 90 d.C., o que podemos afirmar é que foi escrito mais para o final dessa década.
A tradição da igreja aponta para a Judeia como o local para o evangelho escrito em aramaico. Para o evangelho em grego, cidades como Antioquia, as cidades fenícias de Tiro e Sidônia, o sul da Síria, até mesmo Alexandria e Edessa. Os teólogos apontam o sul da Síria como o lugar mais plausível. Isso porque esta região poderia abarcar cidades importantes como a Cesareia Marítima, Decápole, Damasco e Pela. Outros veem indícios de localização “além do Jordão” (Mateus 4.15 e 19.1). 
O destino eram cristãos-judeus familiarizados com os costumes judaicos do Antigo Testamento. O objetivo era mostrar aos seus patrícios que Jesus era o Messias de Israel. O evangelista tinha consciência de que o Reino de Deus também era para os gentios. Por isso, os destinatários certamente são helenistas entre os judeus.

Fontes de Pesquisa:

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
     Benedict T. Viviano, O.P. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011. 


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS

II
 TEOLOGIA DE MARCOS

Os evangelhos não são biografias, mas uma história concisa da redenção obtida mediante a obra de Cristo. Marcos demonstra a autoridade de Cristo como o Mestre (Mc 1.22), sua autoridade sobre Satanás e os espíritos malignos (Mc 1.27; 3.20-30), sobre as doenças (Mc 5.21-34), sobre o pecado (Mc2.1-12), sobre o sábado (Mc 2.27 e 28; 3.1-6), a natureza (Mc 4.35-41; 6.45-52), a morte (Mc5.35-43), as tradições legalistas (Mc 7.1-13) e que Jesus é maior que o templo (Mc 11.15-18).

1. A teologia que revela Cristo

O título de abertura revela sua tese central em relação a identidade de Jesus Cristo como o Filho de Deus: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). O batismo e a transfiguração revelam sua qualidade de Filho de Deus (Mc 1.11 e 9.7). Até os espíritos imundos reconhecem Jesus como o Filho de Deus (Mc 3.11 e 5.7). Sua parábola faz alusão a qualidade de Filho de Deus (Mc 12.6). Por fim a narrativa da crucificação termina com a confissão do centurião romano: ‘Verdadeiramente, este era Filho de Deus” (Mc 15.39).
Jesus usou com mais frequência o título de “Filho do Homem”, num total de catorze vezes em Marcos. Ele como Messias (Dn 7.13), utilizou tal título para revelar e para esconder seu messianismo e relacionar-se com tanto com Deus quanto com os homens.

2. A teologia que revela o Espirito Santo

Assim como os demais evangelistas, Marcos recorda a profecia de João Batista de que Jesus “batizaria com Espirito Santo (Mc 1.8). Os crentes seriam totalmente imersos no Espirito Santo, como os seguidores de João eram nas águas.
O Espirito Santo desceu sobre Jesus em seu batismo (Mc 1.10), habilitando-o para o seu trabalho messiânico de cumprimento das profecias de Isaias 42.1; 48.16 e 61.1-2. Assim, seus milagres e ensinamentos resultaram da unção do Espírito Santo. O Espirito Santo conduzia Jesus, mesmo nos lugares mais distantes (Mc1.12). Esta passagem indica a urgência que o Espirito Santo tinha por promover o encontro entre Cristo e Satanás, para que esse vencendo a tentação embarcasse em sua missão de destruir o poder das trevas.
O pecado contra o Espirito Santo é colocado em contraste com “todos os pecados” (Mc 3.28), pois esse pecados e blasfêmias podem ser perdoados. O contexto define o significado dessa verdade assustadora. Os escribas blasfemaram contra o Espirito Santo ao atribuírem a Satanás a expulsão dos demônios. Tal obra, Jesus realizava pela ação do Espirito Santo (Mc 3.22).
Marcos destaca a inspiração que Jesus credita ao Espirito Santo no Antigo Testamento (Mc 12.36). E quando os cristãos enfrentassem a hostilidade de autoridades injustas, o Espirito falará através deles (Mc 13.11).
A teologia de Marcos sobre o Espirito Santo é tão rica, que além de referências explicitas sobre sua atuação no ministério de Jesus, há o emprego de outras palavras com o dom do Espirito Santo, como poder, autoridade, profeta, cura, imposição de mãos, Messias e Reino.

3. A teologia que revela a Paixão de Cristo

Marcos escreve para uma igreja que estava sendo perseguida. Muitos desses cristãos eram gentios convertidos ao cristianismo, muitos não conheciam nada do Antigo Testamento. Muitos não estavam interessados no cumprimento de profecias. Mas estavam interessados em um líder notável que surgira na Palestina. A esse líder se atribuía autoridade fora do comum e possuía poderes que não eram dessa terra. Estes irmãos queriam ouvir e saber mais a respeito de Jesus – que pessoa ele era, o que tinha dito e o que tinha feito.
Nas décadas de 60-70 d.C., os crentes de Roma eram tratados cruelmente pelo povo e muitos foram torturados e mortos pelo Imperador Romano, Nero. Segundo a tradição, entre os mártires cristãos de Roma, nessa década, estão os apóstolos Pedro e Paulo. Como um dos líderes eclesiásticos em Roma, João Marcos foi inspirado pelo Espirito Santo a escrever, como uma antevisão profética desse período de perseguição, ou como uma resposta pastoral à perseguição. Sua intenção era fortalecer os irmãos romanos e inspirá-los, oferecendo-lhes como modelo a vida e, o sofrimento de Cristo.

a)      A trama para matar Jesus

Foi na tarde de Terça-feira. Cerca de um mês antes disto, depois que Jesus ressuscitou a Lázaro, o sinédrio decidira definitivamente matá-lo (João 11.53). Mas a popularidade de Jesus tornou-o alvo difícil (Lc 22.2). Até Jerusalém as multidões não O deixavam (Mc 12.37). A oportunidade chegou, na segunda à noite depois desta, com a traição de Judas que, num movimento de surpresa, entregou-O ao sinédrio a noite, enquanto a cidade dormia. Apressaram-se em fazer que fosse condenado antes que clareasse o dia e, de manhã, antes que as multidões na cidade despertassem, já O tinha pregado na cruz.
b)      A traição

Cabia a Judas entregar Jesus ao sinédrio na ausência das multidões. Covardes, eles não ousavam prender ou fazer qualquer dano a Jesus em público com medo de serem apedrejados pelo povo. Judas era discípulo, o mesmo sabia os lugares secretos de retiro do mestre amado. Jesus sabia desde o princípio o valor que seria traído. Trinta moedas de prata eram equivalentes ao preço de um escravo (Êx 21.32). Talvez eles pensassem que Jesus usaria seus poderes para livrar-se, ou se revelaria como o Messias. Todavia, Jesus era o cordeiro de Deus, e aos seus olhos o que Judas fez foi um ato de perfídia (Mt 26.24). Tudo o que ocorreu com o Servo Amado fora predito (Zc 11.12 e 13).

c)      O julgamento

Marcos apresenta dois Julgamentos – um diante dos líderes judaicos e outros diante de Pilatos. Parece que Marcos considerou o julgamento judaico como o mais decisivo, ainda que em uma perspectiva jurídica, o julgamento que valia era o Romano. Diante dos dois julgamentos, Jesus o Servo Humilde fica totalmente em silencio.
Diante de Anás. Cerca de meia-noite, Caifás era o sumo sacerdote. Mas seu sogro, Anás, que fora deposto em 16 d.C., ainda retinha, mediante os filhos, a influência do oficio. De acordo com fontes históricas da época, a família de Anás se enriquecera às custas das barracas de negócio no templo.
Na casa de Caifás (Mc 14.53). Deu-se o principal julgamento no âmbito judaico. Incapazes de apresentar alguma acusação baseada em testemunho, condenaram-no por “blasfêmia”, por Se haver declarado Filho de Deus (Mc 14.61 e 62). Apesar dessa sessão ser ilegal por força da própria lei que os regia, nosso Amado Cristo foi escarniado enquanto aqueles homens maus esperavam o dia clarear.
Depois de uma noite de escarnio, o sinédrio ratifica oficialmente sua decisão (Mc 15.1), para lhe dar aparência de legalidade. A acusação que o sinédrio levou até Pilatos, não vale muito. De modo que tentaram acusá-lo de sedição contra o governo Romano.
O governador romano Pôncio Pilatos foi legalmente responsável pela morte de Jesus por crucificação. A acusação que levou à crucificação foi a reivindicação de que Jesus era o “rei dos Judeus” – um título que segundo os comentaristas tinha tons revolucionários para os romanos.
Marcos e os outros evangelistas apresentam as autoridades judaicas como os principais articuladores e Pilatos simplesmente cedendo à sua tática de pressão. Esta tendência protocristã de diminuir o envolvimento dos romanos e atribuir às autoridades judaicas a responsabilidade principal pela morte de Jesus. O relato de Marcos do julgamento diante de Pilatos de fato omite o veredito.
Quem foi Pôncio Pilatos? Prefeito da Judeia de 25 a 36 d.C., o retrato de Pilatos como como indeciso e preocupado com a justiça contradiz outras descrições antigas que falam de sua crueldade e obstinação. Seu quartel-general era na Cesareia Marítima; ele tinha vindo para Jerusalém supervisionar a peregrinação da Pascoa de modo a evitar tumultos. A pergunta que Pilatos a Jesus: “Es tu o rei dos Judeus? Era uma estratégia para liga-lo a movimentos messiânicos-políticos daquele tempo e condená-lo como revolucionário. A resposta de Cristo, é magnifica e única: Tu o dizes. Não nega a verdade do título da forma como foi aplicado a Ele, mas não aceita a estrutura política implicada no uso por Pilatos.
Depois da entrevista particular, Pilatos está convencido da inocência de Jesus. Vindo a saber ser Ele da Galileia, mandou-O a Herodes, que tinha jurisdição sobre aquela parte do país. A exemplo dos líderes do sinédrio, Herodes escarnece de Jesus, vestindo-O de uma roupa aparatosa, e mandou-O de volta a Pilatos.  
Diante de Pilatos outra vez, o mesmo lava as mãos e diante do ardil da ameaça de denunciá-lo a Cesar, caso solte Jesus. Pilatos decreta a sentença.

d)     A crucificação

O relato da crucificação é feito de forma simples e sem se deter nos detalhes dos sofrimentos de Jesus (ainda que estes façam parte da passagem).
O local da crucificação merece a nossa atenção. Marcos relata que jesus foi crucificado em um monte chamado Gólgota (em aramaico: Gûlgaltâ; em latim: Calvaria; em grego: Κρανιου Τοπος; transliterado Kraniou Topos). Calvário vem do latim calvaria, O termo significa "caveira", referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio. Este lugar ficava fora dos muros de Jerusalém.
A expressão “então o crucificaram”, demostra que a descrição é dura e breve. Seu manto se tornou propriedade dos soldados que o executava.

e)      A morte de Jesus

A morte de Jesus aconteceu de acordo com a vontade de Deus dada a conhecer nas profecias do Antigo Testamento. O rasgar do véu do Templo e a confissão do centurião dão à morte de Jesus uma dimensão profunda em relação ao antigo Israel e à missão aos gentios.
Marcos narra que houve trevas sobre toda a terra. Esta terra provavelmente se refira a Judeia. As trevas da hora sexta (meio-dia) até a hora nona (15 horas), têm sido interpretadas como uma tempestade de areia, outros a interpretam como um eclipse solar.
Ao escrever o clamor que Jesus fez em aramaico do Salmos 22 “Eloi, Eloi, Lema Sabachthani”, o evangelista não exclui uma experiência do abandono emocional de Jesus, assim descrevendo as dores que Cristo suportou como sendo espirituais, físicas e emocionais.
Depois de sentir as maiores dores, Cristo dando um grande grito, morre. Uma morte repentina e violenta, não havendo demora em detalhes do último clamor do Mestre Amado.

f)       Sepultamento e Ressurreição

José de Arimateia, provavelmente um membro do sinédrio que condenou Jesus se dirige a Pilatos e pede o corpo de Jesus. Após a investigação e a confirmação oficial de que Jesus estava realmente morto – logo qualquer teoria que fale de Jesus em coma ou um tipo de ataque não merece confiança.
Jesus é sepultado em uma área em torno de Jerusalém descrita como um gigantesco cemitério. A tumba de José era uma estrutura semelhante a uma caverna, formada de calcário e selada com uma grande pedra circular. O cadáver seria posicionado em uma prateleira esculpida na rocha, onde iria se decompor por cerca de um ano. Então os ossos seriam juntados e colocados em um ossuário.
A maior prova da ressurreição de Jesus, não era o tumulo vazio, esta foi a condição necessária para os discípulos proclamarem que Jesus estava vivo e, fora ressuscitado dos mortos. 
         
 Consideração finais

 Há forte evidencias de que Marcos finaliza o seu relato no versículo 8 do capitulo 16. O relato do versículo 9 ao 20 do mesmo capitulo, dá origem a teoria do final mais longo. O estilo e a escrita, indicam que não foi escrito pelo mesmo autor esta parte do evangelho, além do estilo, não consta nos melhores e mais antigos manuscritos disponíveis atualmente e não constava nos manuscritos dos tempos patrísticas. É muito provável que seja um compendio, do século II, das aparições baseado em Lucas 24 e João 20.
Porém, isso não tira a beleza e a inspiração desse evangelho, que além de servir de fonte para os de Mateus e Lucas, também serviu de palavras de encorajamento e esperança para os crentes perseguidos pelo império Romano. 

Sergio Levi

Fontes de Pesquisa: 

BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.





O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS

II
CARACTERÍSTICAS TEOLÓGICAS E LITERÁRIAS

Marcos não é um historiador como Lucas. Antes é um narrador que conta o que chegou ao seu conhecimento. Escreve em grego, com a rustica característica de quem está usando um idioma que não lhe é próprio e, contudo, desenvolve um estilo vivo e vigoroso.
Mesmo relatando coisa ouvidas que lhe vem à memória, é capaz de criar a impressão de encontrar-se como testemunha ocular dos fatos relatados. Estes detalhes tornam necessário o estudo da estrutura literária e do conteúdo desse evangelho.

1.  Estrutura Literária 
Após a introdução, a primeira metade do evangelho descreve a atividade de Jesus na Galileia e arredores. A segunda metade enfoca a preparação para o sofrimento e Jesus em Jerusalém. A última metade um discurso apocalíptico e a paixão de Cristo.
Esta estrutura destaca a autoridade (no grego exousia) de Jesus. Assim que sabemos quem é Jesus (Mc 1.1-15), veremos sua autoridade se revelando em obra e palavra (Mc 1.16-3.6), sua rejeição por parte dos Judeus (Mc 3.7-6.6) e os discípulos equivocados acerca de Jesus (Mc 6.6b-8.21).  Mas é no caminho para Jerusalém que Jesus esclarece sua autoridade e explica suas consequências para os seus seguidores (Mc 8.22-10.52). Em Jerusalém Jesus se depara com resistência a seu ensino (Mc 11.1-13,37) e enfrenta uma morte cruel e trágica nas mãos das pessoas que rejeitaram sua autoridade (Mc14.1-16,8).
Assim Marcos criou o gênero literário do evangelho. Paulo e outros dos primeiros cristãos usaram o termo evangelion, como as “boas novas” sobre a ação de Deus em Jesus Cristo. Como o primeiro a escrever um relato do ministério de Jesus de uma forma ordenada, Marcos parece ter criado um modelo seguido e desenvolvido por outros evangelistas.
O estilo de Marcos agradava os romanos, uma mensagem direta. Tantas vezes aparece a conjunção “e”. Este é o evangelho do ministério de Jesus. Os romanos dos dias de Jesus era um tipo semelhante ao homem de negócios de hoje. Ele não está interessado na genealogia de um rei, mas num Deus capaz de suprir as necessidades diárias do indivíduo. 

2. Teologia de Marcos

Marcos destaca em sua teologia o mesmo que Jesus destacou em seu ministério terreno – o Reino de Deus. Tudo o que é ensinado por Jesus e a resposta que os discípulos dão a este ensino, recebe sua estrutura no Reino de Deus.
Jesus inicia o seu ministério pregando sobre o Reino de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho. ”
No tempo de Jesus, o Reino de Deus se designava como a revelação do senhorio de Deus no final da história e seu reconhecimento por parte de toda a criação. Os ensinos de Jesus, seus milagres, as parábolas tudo tinha como objetivo aprofundar a compreensão e, mostrar com antecipação como será a vida no Reino de Deus. Mesmo estando em grande medida oculto, em Jesus o Reino de Deus é inaugurado e antecipado. Podemos concluir que a vida de Jesus, era de fato a maior demonstração do Reino de Deus.
Assim, a teologia de Marcos é sublime em seu intento: qualquer pessoa que deseje entender o Reino de Deus deve olhar para Jesus, o Servo que cura, o Servo que é Mestre por excelência, o Servo que foi crucificado e ressurreto.
Os milagres relatados são equilibrados pelo retrato da Paixão de Cristo que Marcos nos fornece. A medida que progride, o desenvolvimento dramático cresce com intensidade, até alcançar o seu ápice, o relato da Paixão, Crucificação e Ressurreição de Jesus. Cristo anuncia três vezes esses acontecimentos: “O Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas... e o entregarão aos gentios; hão de... mata-lo; mas depois de três dias, ressuscitará” (Mc 10.34 e 34; 8.31 e 9.31). Dentro dessa estrutura teológica, há um amplo uso do acervo de títulos Cristológicos: Messias, Filho de Deus, Filho do Homem, Senhor, Filho de Davi, Servo Sofredor e Justo Sofredor.
Marcos revela o chamado de “segredo messiânico”. Este termo surgiu dos vários episódios em que Jesus ordena que as pessoas guardem silencio sobre sua ação ou identidade (Mc 1.34 e 44; 3.12; 5.43; 7.36; 8.26 e 30; 9.9). Harrington (2011), citando W. Wrede explicou “este fenômeno como a forma de Marcos explicar o fato de que Jesus, em seu ministério público, nem reivindicou ser o Messias, nem foi reconhecido como tal. A personalidade de Jesus, não satisfez às expectativas judaicas, pois longe de se apresentar como político e militar, o fez como um homem humilde cuja a atividade e ensinamentos não correspondiam à imagem triunfante de um libertador nacional. Marcos como um todo mostra que o significado real da messianidade de Jesus só se tornou claro com a sua morte e ressurreição. Outro ponto que devemos observar, é que os judeus esperavam um Messias com funções Políticas e Militares, talvez Marcos não quisesse provocar as autoridades romanas.
Outro ponto marcante na teologia de Marcos, é a preocupação com o discipulado. Segundo este evangelista, o ideal de discipulado é “ouvir, seguir e estar com Jesus, compartilhando de sua missão de pregar e curar”. Também, parece que Marcos que nos mostrar que o único modelo a ser seguido é o de Cristo. Na primeira metade do evangelho, os discípulos são retratados como exemplos a serem seguidos; na segunda parte, eles são exemplos a serem evitados. Esta mudança destaca Jesus como o único que merece imitação. Jesus de Nazaré, é o Filho de Deus, mas também é o Filho do Homem. Participa dos sentimentos humanos e é sujeito ao sofrimento e à morte (Mc 8.31). Por isso preenche todos os requisitos para ser o nosso modelo ideal.
Não entendam isso como uma polemica entre Marcos e os discípulos, não nos esqueçamos que uma das fontes que cedeu material para a elaboração desse evangelho foi o apostolo Pedro.

Sergio Levi

Fontes de Pesquisa: 
BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.




quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS
O evangelho segundo Marcos retrata o tempo do ministério público de Jesus. Começa narrado a vida de João Batista e o batismo de Jesus pelo mesmo. Termina com o sofrimento e com relatos dos encontroa de Jesus ressurreto. A ênfase dessa narrativa está nos atos de Jesus. Eles são apresentados de forma breve e nos dão uma visão nítidas dos milagres e feitos na Palestina e dos debates com os líderes dos Judeus. Também há relatos das palavras e discursos de Jesus, mas, se contrastados com os seus atos, estão em segundo plano.

Como já mencionamos, o evangelho segundo Marcos é o mais breve dos sinóticos. Desta forma se coloca como base para a pesquisa bíblica sobre os demais sinóticos. Quase todo o seu conteúdo está também em Mateus e Lucas. Assim, o estudo de Marcos antes dos outros sinóticos, facilitará a aprendizagem do conhecimento dessa matéria.
1.      Autoria
Uma vez que o título “segundo Marcos” foi acrescentado posteriormente, nada neste evangelho identifica seu autor pelo nome. O título provavelmente reflete a identificação feita na época patrística entre o autor deste evangelho e João Marcos (At 12.12 e 25; 13.5-13; 15.37-39; Cl 4.10; Fm 24; 2Tm 4.11). Este Marcos foi companheiro ou como alguns teólogos afirmam discípulo de Pedro (1Pe 5.13). Fora a identificação datada do século II, o evangelho não cita o nome de seu autor; portanto uma informação da igreja antiga.
No evangelho não há pontos de apoio para a posição de que foi João Marcos o seu autor. Há teólogos, que se referem ao jovem que, na hora em que Jesus foi preso, deixou o lençol com que se vestia nas mãos dos soldados (Mc 14.51). Acho pouco provável que Marcos queria se identificar dessa forma como o autor.
Uma constatação a que devemos dar mais valor vem do grande mestre e historiador Eusébio (239-339), que em seu livro a História Eclesiástica, cita o pai da igreja Papias, que viveu no início do século II e, assim, ainda tinha contato com a era apostólica. Papias escreveu uma “Exposição das palavras do Senhor”, na qual se baseia no Presbítero João que teria dito: “Marcos escreveu com exatidão, mas não em ordem, as palavras e atos do Senhor, dos quais, como interprete do apostolo Pedro, ele recordava. Pois ele mesmo não tinha ouvido e acompanhado o Senhor; mas, como dito, mais tarde seguiu a Pedro, que apresentava os seus ensinamentos de acordo com as necessidades dos seus ouvintes, mas não em forma completa dos discursos de Jesus. Por isso não é erro se Marcos anotou algumas coisas assim como a sua memória as ditava. Pois ele tinha grande preocupação: Não omitir nada do que tinha ouvido, e não se tornar culpado de alguma mentira no seu relato.
Com base na afirmação de Papias e sua confirmação por parte de outros escritores cristãos dos primórdios, o evangelho é tradicionalmente atribuído a Marcos o “interprete de Pedro” e situado em Roma após a morte de Pedro por volta de 64-67 d.C.
Alguns questionam a confiabilidade da informação de Papias. Os céticos se baseiam nas seguintes razões: se este evangelho foi escrito por João Marcos, originário de Jerusalém, o mesmo cometeu erro geográficos que uma pessoa de Jerusalém não podia cometer. Por exemplo, “Gerasa” não podia estar na outra margem do mar da Galileia (Mc 5.1). Também, não seria possível ir de Tiro ao mar da Galileia por Sidom e de lá chegar a Decápolis (Mc 7.31). Também a observação de que Jesus foi para o território da Judeia além do Jordão, não faria sentido (Mc 10.1). Como alguém de Jerusalém escreve para cristãos gentios? O relato sobre a morte de João Batista não se encaixa nos costumes da Palestina. Outro ponto que coloca em dúvida, é o fato do autor ter negligenciado o fato de que o relato do capitulo 6.35ss e 8.1ss são variantes de uma mesma história de multiplicação dos pães.
Mesmo sem entrar em discussão abrangente e detalhada sobre o assunto, poderíamos perguntar se de fato a região dos gerasenos é tão distante do mar da Galileia; porque não seria possível passar por Sidom para ir de Tiro ao mar da Galileia e por que o ministério além do Jordão seria impossível na viagem para Jerusalém?
Por isso creio que as informações de Papias são confiáveis.  
2.      Data, Local e Destino
A maior parte dos teólogos datam a escrita desse evangelho entre 65 e 70 d.C. Isso porque é sustentado no meio teológico que Marcos escreveu depois da morte de Pedro, que aconteceu durante as perseguições do Imperador Nero por volta de 67 d.C. O evangelho em si, especialmente no capitulo 13, indica ter sido escrito antes da destruição do Templo em 70 d.C. Com base nas orientações de Jesus, a igreja primitiva abandonou Jerusalém antes do cerco dos romanos e fugiu para Pela, na Peréia.  Isso sugere que estas informações teriam sido escritas ante de 66 d.C.
Papias sugere que o evangelho tenha sido escrito em Roma, porém esta não é a única fonte que embasa este pensamento, o “empréstimo de vocábulos latinos no texto grego e também pela atmosfera de perseguição iminente que permeia o evangelho” (Harrington, pag. 66).
É unanime a conclusão de que este evangelho foi escrito à igreja em Roma.

Sergio Levi

Fontes de Pesquisa: 
BÍBLIA. Português.Palavra Chave Hebraico-Grego. 3 edição. Rio de Janeiro: CPAD 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Estudo do Discípulo. 2 edição. São Paulo: Geografica 2013.
HARRINGTON, Daniel J. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2011.